Nicolai Gumiliov/ Николай Гумилев (17)


Quando o carrasco ordenou: “Poeta Nikolai Gumiliov, um passo adiante”, o condenado retrucou: “Aqui não há nenhum poeta. Quem está aqui é o oficial Nikolai Gumiliov”. Naquela execução de 1921, caso único em que o regime bolchevique admitia publicamante o assassinato de um escritor, vindo a publicar o ato em jornais, Gumiliov tinha certeza que era o oficial do exército quem tombava, o poeta estaria de pé influenciado as gerações seguintes, como de fato aconteceu. 

Monarquista convicto, quando aconteceu a Revolução de 1917, Gumiliov se encontrava na Inglaterra prestando serviço ao Exército de seu país na Primeira Guerra Mundial. Instado a ficar no exterior, teria respondido: “eles (os bolcheviques) não são mais ferozes do que os leões africanos”. Aqui, o poeta fazia menção à sua atividade como etnógrafo e ao seu amor pela África, continente que visitou por quatro vezes.

Além de uma história de vida cheia de aventuras, Gumiliov foi o criador do Acmeísmo, escola literária que rivalizava com o Simbolismo e propunha um retorno à objetividade. Não à toa, o primeiro livro de poemas de Mandelstam, um dos maiores representantes desta linha estética, veio a se chamar Pedra. No Brasil, as poucas referências que se fazem a ele, na maioria das vezes, se limitam ao fato dele ter sido casado com Anna Akhmátova. 

O poema que traduzi é um dos últimos de Gumiliov. À época, o poeta lecionava cursos de arte poética e este texto foi achado nas anotações de um de seus alunos. “Pantum” é  

um poema de origem malaia, composto de quadras com rima cruzada, e caracterizado pela repetição de certos versos e pelo paralelismo de duas ideias centrais.


Pantum


São tão fatais a ânsia e a angústia

A nós a espera inútil faz-se 

Se acaso eu caia na  Tcheká? 

Não sou vermelho, vocês sabem!

A nós a espera inútil faz-se 

Forças, talvez, eu nem mais tenha.

Eu nem sou branco, sou poeta. 

Forças, talvez, eu nem mais tenha.

Ler relatórios, fazer versos

Eu nem sou branco, sou poeta,

Toda política desgosta-nos. 

Ler relatórios, fazer versos. 

Dar atenção à conjunção “como”

O chão à glória é lento e certo:

Minha tribuna - ela é o zodíaco! 

Acima desta terra suja 

O chão à glória é lento e certo 

Mas o viver humano é fácil 

Acima desta terra suja

São tão fatais a ânsia e a angústia.




Какая смертная тоска

Нам приходить и ждать напрасно.

А если я попал в Чека?

Вы знаете, что я не красный!

Нам приходить и ждать напрасно

Пожалуй силы больше нет.

Но и не белый, — я — поэт.

Пожалуй силы больше нет

Читать стихи, писать доклады,

Но и не белый, — я — поэт,

Мы все политике не рады.

Писать стихи, читать доклады,

Рассматривать частицу «как»,

Путь к славе медленный, но верный:

Моя трибуна — Зодиак!

Высоко над земною скверной

Путь к славе медленный, но верный.

Но жизнь людская так легка,

Высоко над земною скверной

Такая смертная тоска.

***

Publicado em 3 de dezembro de 2022 na edição do jornal A União

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