Marina Tsvetáeva/Марина Цветаева


 


Marina Tsvetáeva talvez seja a poeta que conseguiu manter ligação direta com quase todos os grandes poetas da Era de Prata. Manteve amizade Akhmátova; flertou com Mandelstam; manteve um romance epistolar por anos com Pasternak; encontrou-se com Maiakóvski no exterior, a respeito de quem escreveu um dos mais lúcidos textos por ocasião seu suícidio: “doze anos seguidos o homem Maiakovski ficou matando em si mesmo o Maiakovski poeta, no décimo terceiro ano, o poeta se levantou e matou o homem”. 

Filha de uma família abastada, Marina nasceu em Moscou no ano de 1892. Quando a Revolução se consolidou em 1922, a poeta emigrou e morou no exterior até 1939.  Sabendo que a força do poeta está em sua terra natal, regressou, mas acossada pelas dificuldades enfrentadas, Marina se matou em 1941. 

Em 1975, um poema seu, que traduzi abaixo, transformou-se em canção, interpretado pela famosa cantora Alla Pugachiova, presente na trilha sonora do filme Ironia do destino, um dos maiores clássicos da cinematografia soviética.  


***

Gosto de não ser doente por você

Gosto de que não seja doente por mim

Que o globo terrestre em peso não vai ter

Jamais que flutuar aos nossos pés assim. 

Gosto de saber que posso ser boboca,

Ter boca solta, sem trocadilho e não

Ficar vermelha como onda que sufoca

Tocando, quase leve, entre a camisa e a mão. 


Gosto ainda de que você bem na minha frente

Com tranquilidade a uma outra abrace

Sem me predestinar a ir ao inferno, a gente

Nem vai sofrer por não ser eu quem te beijasse

E que meu nome doce, tão doce, nem

É dito em vão…  de dia ou de noite… e numa 

Catedral em silêncio jamais alguém

Irá cantar para nós dois uma aleluia.  


Obrigado a você de peito e mão abertos

Pelo fato de que - mesmo inconsciente -

Você me ama assim: por meu anoitecer quieto 

Pelos raros encontros nas horas do poente

Pelos não-passeios ao luar, porquê

Não houve nenhum sol por sobre nós, enfim,

Porque - ai! - não sou doente por você

E porque - ai! - você não é doente por mim


1915


***

Мне нравится, что Вы больны не мной,

Мне нравится, что я больна не Вами,

Что никогда тяжелый шар земной

Не уплывет под нашими ногами.

Мне нравится, что можно быть смешной —

Распущенной — и не играть словами,

И не краснеть удушливой волной,

Слегка соприкоснувшись рукавами.


Мне нравится еще, что Вы при мне

Спокойно обнимаете другую,

Не прочите мне в адовом огне

Гореть за то, что я не Вас целую.

Что имя нежное мое, мой нежный, не

Упоминаете ни днем ни ночью — всуе…

Что никогда в церковной тишине

Не пропоют над нами: аллилуйя!


Спасибо Вам и сердцем и рукой

За то, что Вы меня — не зная сами! —

Так любите: за мой ночной покой,

За редкость встреч закатными часами,

За наши не-гулянья под луной,

За солнце не у нас над головами,

За то, что Вы больны — увы! — не мной,

За то, что я больна — увы! — не Вами.

1915 г.


Marina Tsvetáeva é um nome em ascensão. Já foram editados cinco livros seus com coletâneas de poemas em tradução, respectivamente, de Décio Pignatari, Aurora Bernardini e

Paula Vaz de Almeida.  


Encerramos com uma tradução de um poema seu no período do exílio.


***

Esgueirar-se


Talvez a melhor vitória

contra o tempo e toda força

seja ir sem deixar rastros

seja ir sem deixar sombra


nos muros... 

            Talvez um não

Escolher? Ir-se de espelhos.

Tal qual: Lermontov no cáucaso

se esvai, sem mexer com o outeiro


Talvez o bom desse treco:

com o dedo do órgão de Bach

não poder tocar o eco?

virar pó sem se deixar


Na urna... 

          Talvez o erro

escolher? Fugir do atlas

tal qual: sobre o mar o tempo

se esvai, sem mexer com a água


1923


***
Прокрасться…

А может, лучшая победа
Над временем и тяготеньем -
Пройти, чтоб не оставить следа,
Пройти, чтоб не оставить тени

На стенах…
Может быть — отказом
Взять? Вычеркнуться из зеркал?
Так: Лермонтовым по Кавказу
Прокрасться, не встревожив скал.

А может — лучшая потеха
Перстом Себастиана Баха
Органного не тронуть эха?
Распасться, не оставив праха

На урну…
Может быть — обманом
Взять? Выписаться из широт?
Так: Временем как океаном
Прокрасться, не встревожив вод…

1923 г.

***
Publicado na edição de 23 de setembro de 2023 do jornal A União

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