Irina Tchudnova/ Ирина Чуднова
Prosadora, fotógrafa e poeta, Irina Tchudnova nasceu em Rostov-no-Don, em 1974. Estudou geografia em Moscou, em 1991. Dois anos depois, mudou-se para a China, onde vive até hoje.
Conheci-a no Festival Voloshin, realizado em Kaliningrado. Impressionou-me a propriedade com que analisava os textos poéticos de outros autores. Em Moscou, acompanhei um recital seu no qual Irina detalhou sua carreira e leu um ciclo de poemas escrito durante o período da quarentena.
“A China foi o primeiro país onde aconteceu a pandemia e o último a encerrar”, contou. Traduzi o poema deste ciclo que mais me chamou a atenção.
Vigésima quarta estação dà hán 1: (a fúria do inverno)
bronquíolos de árvores geladas rasuram o céu
e o céu descarrega em vento por cima da morte
secamente tossiam petardos
nos subúrbios dos bairros dormitórios
estradas que são canais de drenagem,
véus vazios sem forma nenhuma,
lá e aqui, igual senhorios, gritantes a pular em quarenta,
como máscaras que piscam por galhos de suas panças brancas.
Depois de nós não se move o tempo, o número e a dor
sem temer ser picado andará o céu descalço
ficará limpa a água doente
e o coração do céu esquecerá
de quebrar a si mesmo todos as noites nos mudos e imundos vidros da cidade vazia:
ministérios, lojas, hotéis...
... à noite cai a prometida neve
e a paz, está na hora de voltar
Lâmpadas limpavam os tristonhos lábios da entrada dos prédios
por sobre os achatados tetos um sol sem jeito raiava
adormeço ao amanhecer - e no sonho -
sem fim, nu e esvaziado, a selvagem Ofélia
pula, pula, grita e grita
igual folha de alumínio de confeito barato, douradas gralhas:
- Kǒuzhào, dài shàng kǒuzhào! 2 -
como se fosse a cidade sem força, infecta, quebrada em
estilhaços
e num sonho
02.02.2020 Pequim, Longze.
(1) dà hán: “grande fio”, vigésimo quarto e último dos 24 termos solares do tradicional calendário agrícola chinês. De 20 de janeiro a 4 de fevereiro, é o período mais frio do ano e em 2020, época da quarentena com restrições por causa do coronavírus em todas as cidades da China.
(2) - Kǒuzhào, dài shàng kǒuzhào! — 口罩,戴上口罩! — (“coloque a máscara, coloque a máscara!”).
***
ДВАДЦАТЬ ЧЕТЫРЕ СЕЗОНА: ДАХАНЬ (гнев зимы)
бронхиолы замёрзших деревьев царапают небо
и небо разряжается ветром надсмертным
откашляли сухо петарды
по окраинам спальных районов
дороги что сливные канавы —
пологи, пусты и безвидны
там и тут, как хозяйки, крикливые скачут сороки —
словно маски, мелькают по веткам их белые брюшки
после нас остановится время, число и страданье
будет небо ходить босиком, не боясь уколоться
станет чистой больная вода
и небесное сердце забудет
разбивать себя ежевечерне в немые немытые стёкла городской пустоты —
министерств, магазинов, отелей..
..в ночь обещаны снег
и покой, и пора возвращаться
фонари обметали подъездов унылые губы
угловатое солнце заходит за плоские крыши
засыпаю под утро — во сне —
бесконечном, нагом и пустынном что Офелия дикая
скачут и скачут, кричат и кричат
как фольга от дешёвых конфет, золотые сороки —
— Коучжао, дайшан коучжао! —
будто город бессилен, заразен, разъят на осколки
и во сне.
02.02.2020г. г. Пекин, Лунцзэ
*Дахань (大寒) — «большие морозы», двадцать четвёртый и последний из 24-х сезонов традиционного китайского сельскохозяйственного календаря. В 2020г. с 20-го января по 4-е февраля, самое холодное время года, в 2020 году время карантинных ограничений по коронавирусу во всех городах Китая.
— Коучжао, дайшан коучжао! — 口罩,戴上口罩! — «Защитная маска, надень защитную маску!» (респиратор, надень респиратор!)
***
Irina Tchudnova já foi traduzida para o inglês, polonês e chinês. Vencedora de vários concursos, participante de importantes festivais de literatura na China, além de publicar em grandes revistas literárias russas.
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