Genrikh Sapgir/ Генрих Сапгир
Genrikh Sapgir nasceu numa família judaica em 1928, na cidade de Biysk, no krai de Altai, na Rússia. Em 1944, após o fim da Segunda Guerra Mundial na qual seu pai serviu, mudaram-se para Moscou. Naquele mesmo ano, Sapgir passou a frequentar o estúdio do poeta e artista plástico Ievguêni Kropivnítzki (1893-1979), em torno de quem, no começo dos anos 1950, passaram-se a se reunir poetas e artistas plásticos no que veio a ser chamado de Escola de Lianózovo, a maior expressão da chamada Segunda Vanguarda Russa cujo trabalho circulava clandestinamente por meio de ‘samizdat’
Traduzimos o poema que dá título a uma coletânea de poemas escrita entre 1958 e 1962.
Vozes
Olhem ali mataram uma pessoa
Olhem ali mataram uma pessoa
Olhem ali mataram uma pessoa
Lá embaixo mataram uma pessoa
Vamos lá, dar uma olhada nele
Vamos lá, dar uma olhada nele
Vamos lá, dar uma olhada nele
Um morto e impressão que se tem de um morto
Mas o quê ele está dormindo, está é morto de bêbado!
É, não morreu, mas dá a impressão de estar morto...
Que morto o quê, ele está é morto de bêbado
No vômito está se resolvendo...
No vômito está se resolvendo...
No vômito está se resolvendo...
Peguem pelos braços e pelos pés,
Peguem pelos braços e pelos pés,
Peguem pelos braços e pelos pés,
Peguem pelos braços e pelos pés,
E sigam com ele até o quintal.
Sacudam ele no quintal.
Ele foi sacudido no quintal!
Sumam com ele do quintal!
E fechem as portas da entrada.
Mais forte fecham as portas da entrada!
E mais intenso tranquem a entrada!
E com todos os cadeados fechem a entrada!
É que ele está gritando ou se calando?
É que ele está gritando ou se calando?
É que ele está gritando ou se calando?
Que há com ele? - está gritando ou se calando?
***
Genrikh Sapgir foi um poeta que a cada livro procurava encontrar um estilo novo. Interessado em poesia visual, costurou sonetos em camisas de manga comprida e desta série, escrita entre 1975 e 1989, traduzimos o poema abaixo:
Soneto sobre o que não há
Não há carne, linguiça, queijo, nada,
Nem chapéus onde nem irei, porém
Um problema maior achei, ninguém
Há por mim, nem saúde, nem morada,
Consciência, alegria, paz e é cada
Desrespeito com o trabalho e nem
Há no campo latrina e já é dada
Por perdida a colheita ano que vem
Mas há PEIXE EM ALMÔNDEGA e há um tão
Mirabolante alvo e imprecisão
Baixeza, vodka, balé e um ar triste,
Bosques e estepes, construções, foguetes
E há quem resida nos cafundós e estes
Deus vê - mas Deus também sequer existe
***
Sapgir trabalhou como autor de livros infantis (40 títulos) e roteiros para desenhos animados (em torno de 60 produções). Sua produção adulta só foi publicada na Perestroika.
Morreu em Moscou, em 1999.
***
Publicado na edição de 3 de fevereiro de 2024 do jornal A União.
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