Dmítri Merejkóvski/ Дмитрий Мережковский


Dmítri Merejkóvski nasceu em 1865, em São Petersburgo. Com 15 anos, foi levado pelo pai à presença de Dostoiévski, a quem leu seus poemas e ouviu: “Fraco... fraco... Não aproveita nada... para escrever bem é preciso sofrer", depois acrescentou: "Não, que não se escreva bem, mas que somente não sofra!”. 

A publicação da coletânea de poemas Símbolos, bem como sua conferência “Sobre as causas do declínio e sobre as novas tendências da literatura russa”, ambos de 1892, são tidos, respectivamente, como o marco do simbolismo e do modernismo russos.  Deste livro traduzimos o poema abaixo:


Solidão


Creia: ninguém vai ter qualquer ideia

 do chão que a tua alma pertence!...

como uma taça de líquido cheia

   de ânsia e saudade ela se enche. 


Quando tu choras com um amigo, - saiba -

    ousas, por certo, e mais não há

do que duas ou três gotas pela aba

      deste cálice a despejar


Mas para sempre dormita em silêncio,

    e dos amigos postou-se erma,

bem lá no fundo do chão que pertence

      à tua alma já enferma


Doutros o mundo, doutro o coração.

  e para ele não há estrada!

Até ele e à amada alma nós não

 vamos poder passar da entrada. 


E existe uma coisa, que bem  fundo

   fica a queimar nos olhos teus,

- muito distante - de mim oriundo,

  como as estrelas pelos céus...


Em tua prisão - que fica em teu íntimo -

  tu , pobre homem, na amizade,

no amor, em tudo, enfim,  és um legítimo

  só, só por toda a eternidade!..


1890


Одиночество


Поверь мне: люди не поймут

Твоей души до дна!..

Как полон влагою сосуд, —

Она тоской полна.


Когда ты с другом плачешь, — знай:

Сумеешь, может быть,

Лишь две-три капли через край

Той чаши перелить.


Но вечно дремлет в тишине

Вдали от всех друзей, -

Что там, на дне, на самом дне

Больной души твоей.


Чужое сердце — мир чужой,

И нет к нему пути!

В него и любящей душой

Не можем мы войти.


И что-то есть, что глубоко

Горит в твоих глазах,

И от меня — так далеко,

Как звезды в небесах…


В своей тюрьме, — в себе самом,

Ты, бедный человек,

В любви, и в дружбе, и во всем

Один, один навек!..


1890 г. 



Dmítri Merejkóvski casou-se com a poeta Zinaida Gippius.  A casa deles se tornou uma espécie de centro da intelligentsia  de São Petersburgo. Ao casal, integrou-se  o ensaísta e crítico literário Dmítri Filosovov. Quando Iessiênin os visitou, Gippius disse: “este aqui é Dmítri Serguevich (Merejkóvski), meu marido; este aqui é Dmítri Vladimirovich, meu marido”. O casal antecipou em quase uma década o escandaloso triângulo amoroso vivido entre Maiakóvski, Lili e Óssip Brik. 


Mas ao contrário do colega futurista, Merejkóvski e Gippius foram veementes críticos da revolução. Em Paris, para onde imigraram, o casal Merejkóvski e Gippius formavam a linha de frente dos oposicionistas refugiados. Merejkóvski destacou-se também na prosa, sendo um dos pioneiros na Rússia, do romance histórico. 


De 1914 a 1937, Merejkóvski foi indicado ao Nobel de Literatura em dez ocasiões, prêmio que acabou sendo concedido a seu compatriota, também emigrante na França, Ivan Bunin, em 1933. 


Merejkóvski escreveu ensaios na área de crítica literária e também notabilizou-se escrevendo biografias, entre as quais, a do imperador francês Napoleão Bonaparte. 


Mas o ódio aos comunistas cegou Merejkóvski de tal forma que ele cometeu um erro fatal no final. Apoiou publicamente Mussolini, de quem recebeu dinheiro para escrever a biografia de Dante, como também Hitler, a quem saudou como líder de uma “santa cruzada contra a Rússia bolchevique” . 

Merejkóvski morreu em 1941. Esta tradução é a primeira de sua poesia em português. 


 

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